Durante anos, os celulares dobráveis foram tratados como uma promessa de futuro. Eram aparelhos caros, visualmente impressionantes e tecnologicamente ambiciosos, mas ainda carregavam problemas suficientes para parecer mais uma demonstração do que uma nova direção para o mercado.
Em 2026, essa percepção começa a mudar.
Samsung já está na oitava geração de sua linha Galaxy Z. Motorola entrou no segmento de dobráveis no formato livro. Google atualizou seu Pixel dobrável. Huawei, Honor e OPPO continuam avançando em diferentes frentes da categoria. E agora a Apple finalmente apresentou o primeiro iPhone dobrável de sua história.
O celular dobrável deixou de ser apenas uma experiência de laboratório. Ele começa a se transformar em uma nova linguagem para o smartphone.
A categoria amadureceu
A primeira geração de dobráveis chamou atenção principalmente pela novidade. Abrir um telefone e revelar uma tela muito maior parecia suficiente para justificar a existência de uma nova categoria.
Mas o mercado descobriu rapidamente que dobrar uma tela era apenas o começo.
Era preciso resolver dobradiças, espessura, peso, autonomia, câmeras, resistência, software e, principalmente, uma pergunta simples: por que alguém deveria querer um celular que dobra?
As gerações seguintes começaram a responder.
Os aparelhos ficaram mais finos, as dobradiças evoluíram, os vincos das telas se tornaram menos perceptíveis e os fabricantes passaram a adaptar o software para aproveitar melhor as diferentes posições e tamanhos de tela.
A inovação deixou de estar apenas no ato de dobrar. Ela passou a estar na experiência criada quando o aparelho está aberto, fechado ou parcialmente dobrado.
Essa mudança é importante porque transforma o dobrável de uma característica de design em uma plataforma de uso.
Samsung transformou o dobrável em uma linha de produtos
Nenhuma empresa representa melhor essa evolução do que a Samsung.
A companhia lançou seu primeiro Galaxy Fold em 2019 e, desde então, transformou os dobráveis em uma das principais frentes de inovação de sua divisão móvel.
Em 2026, a empresa chegou à oitava geração com três propostas diferentes: Galaxy Z Fold8, Galaxy Z Fold8 Ultra e Galaxy Z Flip8.
O Fold8 Ultra leva a proposta para o território da produtividade, com uma tela interna de 8 polegadas e recursos voltados para multitarefa. O Fold8 aposta em uma experiência mais direcionada ao consumo de conteúdo, enquanto o Flip8 mantém a ideia de um smartphone que pode ser reduzido a um formato compacto.
A própria divisão da linha revela o estágio atual do mercado.
O dobrável já não é necessariamente um produto único com uma única finalidade. Ele começa a assumir diferentes papéis dentro do portfólio de uma fabricante.
O formato “livro” está ganhando espaço
Existe uma diferença importante entre os dois principais tipos de dobráveis.
O formato flip transforma um smartphone convencional em um aparelho menor quando fechado. É uma solução principalmente voltada à portabilidade.
Já o formato livro transforma um smartphone em uma espécie de pequeno tablet quando aberto.
Essa segunda categoria está ganhando importância.
Segundo a Counterpoint Research, os modelos do tipo livro devem representar cerca de 65% dos embarques globais de smartphones dobráveis em 2026, contra 52% em 2025.
O mercado está começando a enxergar a tela maior não apenas como novidade, mas como uma ferramenta de produtividade, entretenimento e criação.
É uma mudança de posicionamento importante.
Em vez de perguntar apenas “como fazer um telefone dobrar?”, os fabricantes passaram a perguntar “o que o usuário pode fazer quando tiver uma tela maior sem precisar carregar um tablet?”.
Motorola entrou no território dos grandes dobráveis
A Motorola ajudou a popularizar o formato flip ao recuperar a marca Razr para a era das telas flexíveis.
Mas em 2026 a empresa deu um passo além.
O Motorola Razr Fold marcou a entrada da companhia no formato livro, com uma tela externa de 6,6 polegadas que se transforma em uma tela interna de 8,1 polegadas quando aberta.
O movimento é estratégico porque coloca a Motorola diretamente em uma disputa que antes era dominada por Samsung e fabricantes chinesas.
A proposta também mostra como o mercado está convergindo para uma ideia específica: manter a experiência de um smartphone convencional no bolso e oferecer uma superfície de uso muito maior quando necessário.
Google aposta na inteligência artificial para diferenciar o formato
A Google também continua tratando os dobráveis como uma categoria estratégica.
O Pixel 11 Pro Fold, apresentado em agosto de 2026, combina o formato dobrável com a estratégia de inteligência artificial que já se tornou central na linha Pixel.
Nesse caso, o diferencial não está apenas na tela.
O Google tenta fazer com que o aparelho seja também uma demonstração de como inteligência artificial, software e hardware podem trabalhar juntos em uma superfície maior.
Essa combinação pode ser particularmente importante para os dobráveis.
Uma tela grande permite trabalhar com múltiplas informações simultaneamente, enquanto recursos de IA podem ajudar a resumir, organizar, pesquisar ou transformar aquilo que aparece na tela.
O verdadeiro potencial dos dobráveis pode estar menos na tela flexível e mais no que acontece quando hardware e software passam a entender esse novo formato.
Huawei, Honor e OPPO aceleram a competição
A evolução dos dobráveis não está acontecendo apenas entre as gigantes americanas e sul-coreanas.
Fabricantes chinesas vêm desempenhando um papel decisivo na disputa.
A Huawei permanece como uma das principais forças do segmento, com modelos como o Mate X7 combinando tela interna de 8 polegadas, estrutura reforçada e avanços em resistência e engenharia.
A Honor, por sua vez, apresentou o Magic V6 em 2026 com foco em espessura reduzida, autonomia, durabilidade e recursos de inteligência artificial.
A OPPO também avançou em uma das questões mais visíveis dos dobráveis: o vinco da tela.
Com o Find N6, a empresa apresentou uma tecnologia que chama de “Zero-Feel Crease”, buscando tornar a transição da tela flexível praticamente imperceptível ao usuário.
São abordagens diferentes para o mesmo problema.
Quanto mais os fabricantes competem, menos espaço existe para justificar um dobrável apenas pela novidade.
E então a Apple entrou no jogo
A chegada da Apple muda a dimensão da categoria.
Em setembro de 2026, a empresa apresentou o iPhone Duo, seu primeiro iPhone dobrável.
Aberto, o aparelho possui uma tela interna de 7,6 polegadas. Fechado, utiliza uma tela externa de 5,4 polegadas. A Apple também destaca uma estrutura de dobradiça desenvolvida para o novo formato, além do chip A20 Pro, sistema de câmeras e integração com o iOS 27 e Apple Intelligence.
As pré-vendas começam em outubro, com disponibilidade prevista para 23 de outubro.
A entrada da Apple não cria o mercado de dobráveis. Ela muda a percepção de que esse mercado ainda pertence apenas aos pioneiros.
Esse talvez seja o momento mais simbólico da atual geração.
A Apple não foi a primeira a criar um smartphone dobrável. Pelo contrário: chegou anos depois de Samsung, Huawei, Motorola, Google e outras fabricantes.
Mas sua entrada pode ajudar a transformar uma tecnologia que ainda é percebida como alternativa em uma opção considerada por consumidores que normalmente não experimentam formatos diferentes.
O que realmente mudou nos últimos anos
A evolução dos dobráveis não pode ser medida apenas pelo número de modelos lançados.
Ela aparece na maturidade do produto.
As telas ficaram mais resistentes. As dobradiças ficaram menores e mais sofisticadas. Os aparelhos ficaram mais finos. Os sistemas operacionais passaram a compreender melhor diferentes posições e tamanhos de tela.
A própria Samsung apresentou em 2026 uma nova tecnologia de display baseada em titânio para aumentar a resistência e reduzir a percepção do vinco.
A OPPO tenta praticamente eliminar o vinco visual.
A Huawei investe em estruturas resistentes.
A Honor trabalha com espessura e autonomia.
A Apple entra no segmento destacando integração entre hardware e software.
Cada fabricante está tentando resolver uma parte diferente do mesmo problema: fazer com que dobrar o celular pareça natural.
O celular pode finalmente estar mudando de função
Durante muito tempo, a evolução dos smartphones aconteceu principalmente dentro de um formato que já parecia definitivo.
As telas cresceram.
As câmeras melhoraram.
Os processadores ficaram mais rápidos.
As baterias evoluíram.
Mas o objeto continuou praticamente igual.
O dobrável quebra essa estabilidade.
Quando fechado, ele pode funcionar como um smartphone convencional. Quando aberto, pode assumir características próximas às de um pequeno tablet. Em alguns modelos, também pode permanecer parcialmente dobrado, criando novas possibilidades para câmera, chamadas, consumo de conteúdo ou multitarefa.
Isso significa que o futuro dos smartphones talvez não seja definido apenas por uma tela melhor.
Pode ser definido por uma tela que muda de acordo com o que o usuário está fazendo.
A nova era ainda é premium
Existe, porém, uma contradição importante.
Os dobráveis estão amadurecendo, mas ainda não se tornaram produtos de massa.
A Counterpoint estima que a categoria represente aproximadamente 2% do mercado global de smartphones, mesmo com a expectativa de superar 100 milhões de unidades acumuladas até o final de 2026.
Os preços continuam altos e os modelos mais avançados permanecem concentrados no segmento premium.
Isso significa que falar em “nova era” não significa dizer que todos os celulares serão dobráveis amanhã.
Significa reconhecer que a tecnologia deixou de ser experimental e passou a fazer parte da estratégia de longo prazo das maiores fabricantes.
O próximo desafio é fazer o dobrável desaparecer
Existe uma ironia interessante nessa evolução.
Quanto melhor um celular dobrável fica, menos o usuário deveria pensar no mecanismo que permite dobrá-lo.
O objetivo final não é impressionar porque o aparelho dobra.
É fazer com que dobrar seja simplesmente uma maneira natural de utilizar o telefone.
O verdadeiro sucesso dos dobráveis acontecerá quando ninguém mais precisar explicar por que um celular deveria dobrar.
Nesse ponto, a tecnologia terá deixado de ser novidade e passado a ser apenas mais uma forma possível de computação pessoal.
E talvez seja exatamente isso que esteja começando a acontecer agora.





