CoreWeave: A Startup Que Está Construindo a Infraestrutura da IA
Enquanto as empresas disputam os modelos, uma nova geração de empresas está disputando a capacidade computacional
Quando a inteligência artificial generativa começou a ganhar escala, a atenção do mercado ficou concentrada nos modelos.
OpenAI.
Google.
Anthropic.
Meta.
xAI.
Mas existe uma camada anterior a todos eles.
Antes de uma inteligência artificial responder a uma pergunta, escrever código, gerar uma imagem ou executar uma tarefa, existe uma enorme quantidade de infraestrutura computacional trabalhando nos bastidores.
São GPUs, servidores, redes de alta velocidade, sistemas de armazenamento, refrigeração, energia e data centers.
É nesse mercado que a CoreWeave encontrou sua oportunidade.
Fundada em 2017, a empresa começou como uma provedora especializada em computação acelerada por GPUs e transformou essa especialização em uma plataforma de cloud construída especificamente para cargas de trabalho de inteligência artificial. Em 2025, sua receita chegou a US$ 5,1 bilhões, contra US$ 1,9 bilhão em 2024 e apenas US$ 229 milhões em 2023.
O crescimento foi extraordinário.
Mas a verdadeira história da CoreWeave está em outro lugar.
Ela está tentando construir uma nova camada de infraestrutura para a economia da inteligência artificial.
O problema que a CoreWeave percebeu
A computação em nuvem tradicional foi construída para atender uma enorme variedade de aplicações.
Servidores corporativos.
Bancos de dados.
Sites.
Aplicações empresariais.
Streaming.
Sistemas internos.
A inteligência artificial, entretanto, possui necessidades muito diferentes.
Treinar modelos avançados exige enormes quantidades de processamento paralelo, interconexões extremamente rápidas e clusters de GPUs capazes de trabalhar como uma única máquina.
A CoreWeave construiu seu negócio ao redor dessa necessidade.
Em vez de oferecer uma nuvem genérica, a empresa desenvolveu uma infraestrutura especializada para workloads de IA, incluindo treinamento de modelos, inferência, desenvolvimento de agentes e aplicações de inteligência artificial.
A diferença parece pequena.
Economicamente, ela é enorme.
A CoreWeave não fabrica a inteligência. Ela vende a capacidade de executá-la.
Essa é a melhor maneira de entender o negócio.
A OpenAI desenvolve modelos.
A Anthropic desenvolve modelos.
A Meta desenvolve modelos.
A NVIDIA fornece os principais aceleradores utilizados nesses sistemas.
A CoreWeave constrói uma infraestrutura especializada para colocar esse hardware em operação e disponibilizá-lo para clientes.
É uma espécie de camada intermediária entre a indústria de semicondutores e as empresas que desenvolvem inteligência artificial.
E essa posição ganhou importância conforme o custo computacional dos modelos aumentou.
NVIDIA está no centro da história
A relação com a NVIDIA é um dos elementos mais importantes da estratégia da CoreWeave.
A empresa constrói sua infraestrutura em torno de GPUs e plataformas NVIDIA, incluindo gerações extremamente recentes de hardware.
Em junho de 2026, a CoreWeave anunciou ter alcançado resultados de referência no MLPerf Training v6.0 utilizando um dos maiores clusters NVIDIA GB300 NVL72 do benchmark.
Em maio, também anunciou a validação da plataforma NVIDIA Vera Rubin NVL72.
Isso mostra uma característica fundamental do negócio.
A CoreWeave precisa estar entre as primeiras empresas capazes de colocar novas gerações de hardware em operação em escala.
Quanto mais rápido ela conseguir transformar uma nova geração de GPUs em capacidade disponível para clientes, maior será sua vantagem competitiva.
O negócio deixou de ser pequeno
Os números atuais mostram a dimensão que a CoreWeave alcançou.
No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou receita de aproximadamente **US$ 2,58 bilhões**, mais que o dobro do mesmo período do ano anterior.
Mais impressionante ainda foi o backlog.
A carteira de contratos chegou a aproximadamente **US$ 104,2 bilhões**, contra US$ 99,4 bilhões no primeiro trimestre. A empresa também anunciou mais de US$ 25 bilhões em novos compromissos de clientes durante o trimestre.
Metade desse backlog já está sob contratos ativos, segundo a Reuters.
Isso significa que a CoreWeave não está simplesmente construindo capacidade esperando encontrar clientes depois.
Ela está construindo infraestrutura apoiada por uma demanda contratada de longo prazo.
Meta, Anthropic e Jane Street
A expansão também está mudando o perfil dos clientes.
Em abril, CoreWeave e Meta anunciaram um acordo de aproximadamente **US$ 21 bilhões**, com capacidade dedicada até 2032 para suportar workloads de inteligência artificial da Meta. O acordo inclui algumas das primeiras implantações da plataforma NVIDIA Vera Rubin.
Pouco depois, a CoreWeave anunciou um acordo plurianual com a Anthropic para apoiar o desenvolvimento e a operação dos modelos Claude.
A empresa também anunciou um acordo de **US$ 6 bilhões com a Jane Street**, acompanhado de um investimento de US$ 1 bilhão da companhia financeira na CoreWeave.
A mudança é importante.
A CoreWeave começou sua trajetória com forte concentração em poucos clientes, especialmente a Microsoft.
Agora, está tentando construir uma base mais diversificada envolvendo laboratórios de IA, empresas financeiras e grandes corporações.
O novo tipo de cloud
AWS, Microsoft Azure e Google Cloud construíram algumas das maiores infraestruturas computacionais do planeta.
A CoreWeave está tentando provar que existe espaço para uma categoria diferente.
Uma cloud especializada em inteligência artificial.
Em vez de competir necessariamente pela quantidade de serviços oferecidos, a empresa compete pela eficiência de uma infraestrutura construída especificamente para workloads de IA.
Esse modelo também está dando origem ao que o mercado passou a chamar de **neoclouds**.
São provedores especializados em oferecer acesso a hardware avançado de IA, normalmente com uma infraestrutura muito mais focada do que a encontrada nas grandes clouds generalistas.
A CoreWeave é atualmente um dos principais exemplos dessa categoria.
O preço dessa expansão
Existe, porém, um lado muito menos glamouroso nessa história.
Construir infraestrutura de inteligência artificial custa bilhões.
Em 2025, a CoreWeave registrou US$ 5,1 bilhões em receita, mas também teve prejuízo líquido de aproximadamente **US$ 1,2 bilhão**.
A empresa também possuía aproximadamente **US$ 21,6 bilhões em endividamento** no final de 2025, segundo seu relatório anual.
Isso transforma o crescimento em uma equação complexa.
A CoreWeave precisa construir data centers.
Precisa comprar ou financiar GPUs.
Precisa instalar energia e sistemas de refrigeração.
Precisa conectar os clusters.
E precisa fazer tudo isso antes de conseguir capturar a receita correspondente ao investimento.
É um negócio de infraestrutura com características muito próximas de uma indústria pesada.
A aposta ficou ainda maior
O resultado mais recente mostra até onde essa estratégia está chegando.
Após os resultados do segundo trimestre, a CoreWeave elevou sua previsão de investimentos de capital para 2026 de **US$ 31–35 bilhões para US$ 35–39 bilhões**.
Esse número é impressionante por si só.
Mas fica ainda mais significativo quando comparado à receita anual de US$ 5,1 bilhões registrada em 2025.
A empresa está apostando que a demanda futura por computação de IA justificará uma expansão de infraestrutura em escala gigantesca.
É uma aposta de longo prazo.
Por que as empresas estão dispostas a pagar tanto?
Porque capacidade computacional virou um gargalo.
Ter um modelo poderoso não é suficiente.
É necessário conseguir treiná-lo.
É necessário disponibilizar inferência para milhões ou bilhões de solicitações.
É necessário executar agentes.
É necessário atualizar modelos continuamente.
E tudo isso exige GPUs.
A própria expansão das grandes empresas de tecnologia mostra o tamanho desse problema.
A Microsoft, por exemplo, continua expandindo agressivamente sua infraestrutura de data centers e afirma que a demanda por capacidade continua elevada. A OpenAI também mantém planos de expansão de capacidade computacional em escala de gigawatts.
A CoreWeave está tentando capturar justamente essa diferença entre a quantidade de computação que o mercado deseja e a quantidade disponível.
O paradoxo da CoreWeave
Existe uma contradição interessante no modelo.
Quanto mais demanda existe por IA, mais a CoreWeave cresce.
Mas quanto mais cresce, mais capital precisa investir.
Isso significa que o crescimento não reduz automaticamente a necessidade de financiamento.
Pode aumentá-la.
A empresa precisa continuamente transformar contratos futuros em infraestrutura presente.
Por isso, sua capacidade de financiar expansão é tão importante quanto sua capacidade de vender computação.
O mercado de IA pode estar crescendo rapidamente.
Mas a infraestrutura necessária para acompanhar esse crescimento exige uma quantidade igualmente extraordinária de capital.
A concentração de clientes ainda importa
Outro risco importante está na concentração.
No relatório anual, a CoreWeave reconhece que uma parcela substancial da receita depende de um número limitado de clientes e que a redução significativa dos gastos de um ou mais clientes importantes poderia afetar materialmente seus resultados.
A expansão com Meta, Anthropic, Jane Street e outros clientes ajuda a reduzir esse risco.
Mas não o elimina.
Grandes contratos de infraestrutura podem ser extremamente valiosos.
Também podem representar uma dependência significativa.
O que acontece se a tecnologia mudar?
Existe ainda outro risco.
A CoreWeave investe bilhões em uma determinada geração de infraestrutura.
Mas a indústria de chips evolui rapidamente.
Uma nova geração de aceleradores pode alterar a relação entre desempenho, consumo de energia e custo.
A empresa precisa garantir que seu hardware continue competitivo durante todo o ciclo econômico dos contratos.
Esse é um dos motivos pelos quais a relação com a NVIDIA é tão importante.
A CoreWeave precisa estar próxima da fronteira tecnológica.
A infraestrutura virou o produto
Talvez essa seja a maior transformação provocada pela inteligência artificial.
Durante a primeira fase da revolução digital, software era o principal protagonista.
Agora, infraestrutura voltou ao centro da economia.
GPUs.
Data centers.
Energia.
Refrigeração.
Redes.
Semicondutores.
A CoreWeave representa exatamente esse movimento.
Ela não está tentando criar a IA mais inteligente.
Está tentando construir a máquina que permitirá que outras empresas criem e executem essas inteligências em escala.
A CoreWeave já não é apenas uma startup
Em junho de 2026, a CoreWeave foi selecionada para integrar o índice Nasdaq-100, apenas 15 meses depois de sua abertura de capital.
Esse movimento simboliza a velocidade com que a empresa cresceu.
Mas também muda a natureza da discussão.
A pergunta já não é se existe mercado para uma cloud especializada em IA.
Os contratos atuais mostram que existe.
A questão é se a CoreWeave conseguirá transformar esse crescimento extraordinário em uma operação sustentável, financeiramente eficiente e tecnologicamente competitiva.
Conclusão
A CoreWeave é uma das empresas que melhor representam a segunda fase da revolução da inteligência artificial.
A primeira fase foi dominada pelos modelos.
Agora começa uma disputa diferente.
Quem terá capacidade computacional suficiente para executar esses modelos?
A CoreWeave encontrou uma oportunidade justamente nesse ponto.
Com centenas de bilhões de dólares em demanda contratada acumulada, grandes laboratórios de IA entre seus clientes e dezenas de bilhões de dólares sendo direcionados para expansão, a empresa está tentando construir uma nova categoria de infraestrutura digital.
Mas existe uma condição.
Para transformar a promessa em realidade, a CoreWeave precisará administrar simultaneamente tecnologia, energia, data centers, financiamento, dívida e concentração de clientes.
É isso que torna sua história tão interessante.
A CoreWeave não está apenas vendendo computação.
Está apostando que **computação será um dos ativos mais estratégicos da economia mundial**.
E, em 2026, o mercado parece estar disposto a pagar muito para descobrir se essa aposta está correta.
> **Insight PHD** > > A próxima geração de empresas de tecnologia pode não ser definida por quem cria o melhor software, mas por quem consegue fornecer a infraestrutura necessária para executá-lo em escala. A CoreWeave é uma das primeiras empresas a transformar essa tese em um negócio de dezenas de bilhões de dólares.
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